Sofia tinha 29 anos, era advogada e tinha uma filha. Casada há quatro anos vivia uma estranha relação de amor. Sentia-se amada até ao ponto em que sentia as bofetadas e os pontapés atingirem-lhe o corpo franzino. Foi assim durante os últimos três anos e meio. O silêncio percorria-lhe a mente, sempre inundada por um sofrimento profundo.
Deu entrada no hospital com hematomas graves. Não foi a primeira vez. Acabou por sucumbir ao sofrimento, mas deixou uma filha de três anos e muitos sonhos encerrados no palácio assombrado. Levou com ela a esperança de que o amanhã seria melhor.
A violência doméstica é um flagelo universal que atinge milhares de pessoas, muitas delas de forma silenciosa e dissimulada. As maiores vítimas continuam a ser as mulheres, mas não se pense que os homens têm sempre o papel de agressor. Há estatísticas que demonstram o aumento da violência contra eles, mas também há estudos que remetem alguns casos para as relações de homossexualidade, o que leva a muitos questionamentos de ordem sociológica…
A realidade aponta-nos para um problema que atinge os dois sexos e que não conhece estatuto social, económico, religioso ou cultural, como erradamente se pensa. Além disso, falar de violência doméstica implica abordar as agressões físicas, verbais e psicológicas…e muitas destas envolvem também as crianças.
Muitas vítimas silenciam as agressões durante muito tempo…algumas delas até à pior das consequências. Os especialistas referem que a falta de auto-estima e a dependência emocional ou material têm levado muitas mulheres a esconder a situação. Por outro lado, os homens não se queixam maioritariamente por questões de ordem social, onde eles ainda são vistos como ‘os machos’.
Muito tem sido feito neste campo, onde a violência doméstica passou a ser considerada crime público. As estatísticas mostram também que a opinião pública tem consciência da gravidade do problema, pois o número de denúncias não pára de aumentar. Em Portugal, só em 2007 houve mais de 27 mil queixas. E é preciso reflectir sobre esta problemática, pois os dados parecem alarmantes, mas estão longe de ser um espelho fiel da realidade.
Porque ninguém merece os maus-tratos, porque a violência doméstica é uma violação dos direitos humanos…porque as mulheres (que são as maiores vítimas, sem esquecer as crianças) não merecem que lhes roubem a vida…porque há ainda um longo caminho a percorrer…se conheces algum caso…ou se és vítima…não tenhas medo…NÃO TE CALES!
(Artigo publicado por Carla Cerqueira no jornal Terras do Homem)

